Braille nas embalagens. Quais as informações você deve colocar?

Man climbs CN Tower steps in wheelchair

Escrito por Ricardo Shimosakai

1 de dezembro de 2021

Braille nas embalagens. O Braille é um código desenvolvido para a leitura através do tato, e tem características particulares. É formado pela combinação de uma grade de seis pontos, com duas colunas e três fileiras, onde cada letra ou informação, possui uma combinação de pontos única. O tamanho é padrão, do tamanho e altura dos pontos, e do espaçamento entre eles, portanto não é possível ampliar ou reduzir o tamanho de um texto em Braille.

Isso traz algumas dificuldades, como na questão de espaço e volume. Por exemplo, é possível encontrar uma Bíblia impressa até do tamanho de um maço de cigarro. Mas a Bíblia em braile completa, fica com 38 volumes, que se empilhados, medem 2 metros de altura. Vale dizer também, que não é todo a pessoa com deficiência visual que sabe ler o Braille, e algumas até conhecem, mas não tem fluência na leitura.

Dependendo da embalagem ou rótulo, o espaço é limitado para colocar as informações em Braille, então elas precisam ser selecionadas. Vamos pensar, pegando uma embalagem de lasanha congelada como exemplo. Num produto como esse, o que seria essencial informar a uma pessoa cega?

A Anvisa determina 7 pontos obrigatórios que devem constar nos rótulos de alimentos:
• Denominação de venda – É a definição dada a um alimento que pode ter diversas classificações dentro de um único produto. É o caso do arroz, por exemplo, que pode ser branco ou parboilizado; e do leite, que pode ser integral, desnatado ou semidesnatado.
• Lista de ingredientes – É a indicação de todos os ingredientes que compõem o produto. A apresentação dessa lista ajuda o consumidor a identificar no produto os traços de qualquer item que não pode ou não deve consumir.
• Conteúdo líquido – É a informação que indica a proporção de líquido que compõe o produto. De acordo com a Anvisa, esse valor deve estar expresso em massa (gramas ou quilos) ou volume (mililitros ou litros).
• Prazo de validade – É a informação sobre o período em que o alimento está próprio para o consumo e a data exata em que esse prazo encerra.
• Identificação da origem – É a indicação do local onde o alimento foi produzido e quem é o fabricante. Essa informação mostra ao consumidor a procedência do produto para que ele possa entrar em contato, se for o caso.
• Identificação do lote – Refere-se ao número da fabricação do produto que o identifica internamente dentro do controle de produção da empresa. Assim, nos casos de problema com o consumidor, ele pode ser analisado de acordo com o lote ao qual pertence.
• Instruções sobre o preparo e uso do alimento – Sempre que for essa a situação do produto, o rótulo deve apresentar as instruções sobre o modo apropriado de uso. Isso envolve desde o descongelamento até o tratamento para a utilização correta do produto.

A Anvisa faz apenas uma única exceção a todas essas obrigatoriedades dos rótulos de alimentos: os produtos de embalagem pequena, com menos de 10 centímetros quadrados. Quando for esse o caso, a única obrigatoriedade do produto é informar a denominação de venda e a marca do produto. De resto, ele está dispensado.

Se todas essas informações são obrigatórias de acordo com a Anvisa, então deveriam também estar impressas em Braille, afinal um cego também é um consumidor e tem que ter os mesmos direitos. Dependendo do tamanho da embalagem, mesmo naquelas que possuem uma grande área disponível, como é o caso do exemplo mostrado no vídeo, na grande maioria as informações colocadas são muito básicas, como o nome da marca e o tipo de produto. Veja um exemplo de produto, na Cerveja Colorado com sabor de Gabiroba.

Isso pode causar grandes confusões, pois a variedade de produtos é grande, e uma marca, às vezes tem um mesmo tipo de produto com diferentes variações. Por exemplo, a marca Vigor, tem iogurte de morango nas versões padrão, light, polpa, grego, petit suisse, viv simples, viv protein e viv 3 grãos.

Mesmo que tenha marca e tipo de produto, como Iogurte Vigor Petit Suisse Morango, você saberia exatamente que produto é esse? Acredito que só quem conhece e já experimentou saberia dizer. E o outro produto, Iogurte Vigor VIV 3 Grãos, mas quais são esses grãos? Fica muito difícil ter informações básicas para produtos muito específicos. Para quem enxerga, as embalagens geralmente possuem fotos, que ajudam muito em conhecer o produto. E a acessibilidade de imagens para cegos, é feita através de sua descrição, então o ideal seria ter uma descrição do produto.

Imagine a dificuldade que um cego com restrições alimentares, como um diabético ou celíaco, ou mesmo que esteja querendo fazer uma dieta ou um melhor controle de sua alimentação, e por isso precisa saber dos ingredientes e seus valores nutricionais. A Anvisa exige a informação do conteúdo líquido, colocado em gramas ou mililitros, mas a unidade pode ser importante também. Comprar uma caixa de bombom, que irá dar para seus filhos, é melhor saber a quantidade para fazer uma boa divisão e depois não gerar briga entre eles.

Eu acho que a tecnologia pode ajudar muito nisso, mas ainda pode ser melhor desenvolvida. Já é possível, com seu celular, ter melhores informações de um produto específico, fazendo uma pesquisa na internet. Mas isso ainda dá um certo trabalho, então os produtos poderiam fornecer através de códigos QR, ou mesmo modernizando os códigos de barra, para dar informações detalhadas ao consumidor. Num ambiente virtual, há espaço de sobra para colocar informações, é só prestar atenção também na acessibilidade digital.

Os locais de venda, também podem disponibilizar de uma estação de pesquisa, semelhante àquelas bases de leitura do código de barras, que muitos supermercados possuem, mas que só informam o preço. Um terminal de informações, passando o código de barra, onde irá aparecer informações detalhadas do produto, e ainda o local onde ele está, qual corredor e prateleira. Como você pode perceber, há maneiras muito mais funcionais para oferecer a acessibilidade, que vão de encontro com o conceito que eu criei de Acessibilidade Funcional, e que podem também ser mais fáceis e econômicos para elaborar e produzir.

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