Vivendo com a pandemia. Desafios da covid-19 na vida de uma pessoa com deficiência.

Man climbs CN Tower steps in wheelchair

Escrito por Ricardo Shimosakai

02/03/2021

Este texto foi escrito originalmente a pedido do Expresso Palavra. Foi publicado em duas partes, a primeira no dia 01/12/2020 e segunda no dia 02/12/2020.

A covid-19 trouxe foi uma surpresa, e forçou o mundo a mudar seus hábitos. Eu vejo isso, com uma relação parecida com as questões de acessibilidade e inclusão. Ter limitações forçadas, é o que as pessoas com deficiência passam todos os dias. E ficar em isolamento é algo parecido com o preconceito e discriminação, onde você não é chamado ou aceito. No caso da covid-19, essas sensações vieram através da quarentena e do isolamento social.

Assim como a deficiência adquirida, como eu que fiquei paraplégico devido a um tiro que levei num sequestro relâmpago em 2001, a maioria das pessoas não estão preparadas para lidar com a situação. Deixam de fazer várias coisas que faziam antes, algumas entram em depressão, ficam perdidas, mas é preciso aceitar a nova condição e se reabilitar.

Eu trabalhei por vários anos, focado na acessibilidade e inclusão no lazer e turismo, e minha empresa se chamava Turismo Adaptado. Porém no começo do ano, resolvi ampliar e aplicar minha experiência sobre acessibilidade para outros mercados, pois a acessibilidade é necessária de forma ampla. A empresa passou a ter meu nome, Ricardo Shimosakai. O turismo me deu a oportunidade de adquirir muito conhecimento, trabalhando por muitos anos, conhecendo inúmeros lugares e passando pelas mais diversas situações.

Quando a pandemia veio, tive que me adaptar à situação. Os primeiros meses o isolamento era muito rígido, então praticamente não havia o que fazer, senão ficar em casa. Como todos passaram a utilizar muito a internet, o meu trabalho de publicações diárias na internet, que já era forte e muito visualizado, teve um aumento na visualização e novos seguidores, passando a ser convidado para inúmeras lives e eventos online.

Porém, isso é algo que não gera renda de forma direta, e eu precisava ver esse ponto, para meu negócio continuar crescendo. Ter uma empresa própria traz a liberdade de decidir os melhores caminhos com mais facilidade. Na busca de trazer retorno financeiro, valorizar minha imagem como profissional e me adequar à situação imposta pela covid-19, acabei me deparando com um projeto antigo, adiado por anos, que era montar um curso online sobre acessibilidade.

Eu tinha dificuldade de concluir esse projeto, pois tinha diversas oportunidades de trabalho, e muitas delas externas, como palestras em outros países, consultorias em outras cidades brasileiras, ou mesmo trabalhos na mesma cidade, mas que não me deixavam parar em frente ao computador e me concentrar. Por isso, quando as oportunidades diminuíram, e eu não podia mais ficar saindo de casa, esse projeto antigo se encaixou perfeitamente.

Foi mais fácil colocar foco e dedicação, mesmo sendo por falta de opções, mas isso me ajudou a enxergar, depois de pronto, como as coisas devem ser feitas. Segui um planejamento de negócios, e podia fazer tudo de casa, sem sair do meu quarto. Tenho um acervo enorme de material digital, entre documentos, fotos e vídeos, e isso me ajudou muito. Já tinha praticamente todo o conteúdo, faltava somente gravar algumas partes. Mexer com vídeos e fotos é uma paixão antiga, então lidar com isso também não foi tão complicado, apesar de trabalhoso. 

Organizei todo o conteúdo, com 51 aulas, 8 módulos e mais 3 bônus, totalizando 426 minutos de curso. Dei o nome de “Curso Básico de Acessibilidade e Inclusão”. A idéia é que, muitos não conhecem a base da acessibilidade, como por exemplo, quem são as pessoas que necessitam desse recurso, e sem conhecer o público-alvo, muitas vezes os projetos de acessibilidade saem errados ou com falhas.

Completei um ciclo, desde a idéia, até a coleta de depoimentos de alunos que completaram o curso. Isso me deu experiência, e com isso irei elaborar outros cursos.

Outra coisa a destacar, é que como empresas voltaram suas forças para a internet, muitas que tem ligação com o meu trabalho, me procuraram para anunciar através do meu blog e redes sociais. Isso é fruto de um trabalho que vem desde antes da pandemia, com publicações diárias de materiais úteis e interessantes, e a construção de relacionamentos com meus seguidores. Indiretamente, a internet é ferramenta mais poderosa do meu negócio, e por isso sempre dei grande importância.

Como um balanço geral, o resultado dos meus negócios na pandemia, estão sendo melhores do que antes. Não dá para afirmar que esse crescimento tenha sido graças à pandemia, pode ter sido mérito meu, independente da situação. E poderia ter crescido até mais, pois havia oportunidades em aberto, que não puderam acontecer, justamente por causa da pandemia.

Acredito que eu estava preparado, pois tenho um trabalho diversificado. Além de uma boa atuação na internet, ministro aulas e palestras, dou consultorias, tudo isso pensando em estratégias de negócio. É o famoso plano B, para ter alternativas. A parte ruim, foi não ter a interação social, e ter que ficar um longo período sem sair, porém de forma alguma, posso dizer que este ano foi ruim.

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